19/06/2026
RUY BELO, «ORLA MARÍTIMA»
Damos continuidade à série ‘O Mar na Poesia Portuguesa dos Séculos XIX e XX’ com a publicação do quadragésimo poema, da autoria de Ruy Belo, bem como uma nota sobre o autor e um comentário inéditos, por Rami Morais.
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ORLA MARÍTIMA
O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo da avenida
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios da vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali f**a o retrato destes dias
gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida
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FONTES: Poema – Ruy Belo (2014). «Todos os Poemas», 4.ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim. 321. | Imagem – Google Imagens
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NOTA SOBRE O AUTOR
Rui de Moura Belo (Rio Maior, 27 de fevereiro de 1933 – Queluz, Sintra, 8 de agosto de 1978).
Poeta, ensaísta e professor.
Estudou no Liceu de Santarém e, subsequentemente, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Terá sido durante este último período, mais especif**amente em 1951, que aderiu à Opus Dei. Depois de se transferir para a Universidade de Lisboa, concluiu o curso de Direito, em 1956, e rumou à Universidade de São Tomás de Aquino, também conhecida como ‘Angelicum’, em Roma, onde, após apenas dois anos, se doutorou em Direito Canónico com a tese «Ficção Literária e Censura Eclesiástica».
Em 1958 regressou a Portugal e passou por várias áreas de atividade. Na imprensa, trabalhou como diretor literário da Editorial Aster e chefe de redação da revista «Rumo». Na educação e na ciência, dedicou-se à investigação científ**a, a partir de 1961, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, enquanto bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, e chegou a exercer brevemente as funções de diretor-adjunto no Ministério da Educação, sob grande pressão, em virtude da sua proximidade a elementos da oposição ao regime, da sua participação na greve académica de 1962 e, ainda, da sua candidatura a deputado pelas listas da Comissão Eleitoral de Unidade Democrática. Posteriormente, abandonou a Opus Dei e emigrou para Madrid, em 1971, onde desempenhou o cargo de leitor de Português até 1977. Quando regressou novamente a Portugal, viu as suas tentativas de lecionar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa frustradas e acabou por dedicar-se ao ensino noturno na Escola Secundária Ferreira Dias, em Agualva-Cacém.
Embora o período de atividade poética tenha sido reduzido, à semelhança da sua vida, a obra que publicou tem vindo a obter sucesso crítico e comercial. Relativamente à sua poesia, há a destacar, ao nível do conteúdo, uma forte componente filosóf**a associada ao tratamento de temas religiosos, metafísicos e existenciais, muitas vezes a partir da condição humana do próprio sujeito, na relação com o seu quotidiano e a sua época. Ao nível formal, salienta-se a coexistência do versilibrismo com técnicas poéticas tradicionais e a inspiração em formas bíblicas como o salmo ou o versículo. Escreveu também ensaios sobre poesia e prefaciou «Pelo Sonho É Que Vamos», de Sebastião da Gama. Colaborou com periódicos como «O Tempo e o Modo» e «Ocidente». Verteu para português autores de renome como Montesquieu, Federico García Lorca, Jorge Luís Borges e Antoine de Saint-Exupéry. O reconhecimento tardio da sua obra culminou na distinção póstuma, em 1991, com o grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Sant'iago da Espada.
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COMENTÁRIO AO POEMA
O poema «ORLA MARÍTIMA» constitui parte integrante do volume poético «Homem de Palavra[s]», dado à estampa por Ruy Belo em 1969, e versa sobre o tema da memória e da permanência do passado.
Quanto à estrutura externa, o poema é constituído por vinte e sete versos agrupados numa estrofe bárbara. Escrito em verso livre, o poema não apresenta rima regular nem métrica constante, o que parece reforçar a fluidez do tempo e da memória, temas centrais do poema, bem como o caráter introspectivo do texto, onde as lembranças emergem de forma natural.
No que respeita à estrutura interna, o poema é divisível em três partes: uma primeira, concentrada nos três primeiros versos, que exprime a ideia da associação de memórias a uma localização; uma segunda, que se prolonga do quarto verso ao décimo nono verso, em que se enumeram momentos preservados na memória; e uma terceira, contida no intervalo do vigésimo ao vigésimo sétimo versos, em que se reforça a associação das memórias ao espaço, apesar da passagem do tempo.
Na primeira parte, como se disse, estabelece-se uma associação entre um momento passado, metonimicamente ligado às «suaves raparigas», e uma localização espáciotemporal, a saber, «junto ao mar ao longo da avenida», «ao sol dos solitários dias de dezembro» (verifique-se como as aliterações do último reforçam o caráter solar da memória evocada): «O tempo das suaves raparigas / é junto ao mar ao longo da avenida / ao sol dos solitários dias de dezembro».
Na segunda parte, explicita-se o facto de as memórias criadas no referido espaço se tornarem imutáveis, através da introdução da metáfora da fotografia: «Tudo ali pára como nas fotografias». Depois, surge uma enumeração de memórias imunes à passagem do tempo, uma característica sugerida pela passagem «ainda quando tudo ia mudar» e depois reforçada pela citação, em discurso direto, de um «humanista», «nos alpes» (possivelmente, Rilke, uma forte influência para Belo), aludindo à transitoriedade da vida, logo contestada: «Tudo ali pára como nas fotografias / É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto / alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar / És tu surges de branco pela rua antigamente / noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher / (E nos alpes o cansado humanista canta alegremente) / «Mudança possui tudo»? Nada muda». E, depois, nova enumeração, desta feita marcada pelas antíteses, como sejam «Deus» vs. «homem», «deita» vs. «levanta», «calor» vs. «frio», que refletem a riqueza e amplitude as memórias conservadas: «nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados / levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas / Deus anda à beira de água calça arregaçada / como um homem se deita como um homem se levanta / Somos crianças feitas para grandes férias / pássaros pedradas de calor / atiradas ao frio em redor / pássaros compêndios da vida / e morte resumida agasalhada em asas».
Na terceira parte, o sujeito poético retoma a sua reflexão sobre a invariabilidade das memórias criadas naquele local, uma ideia expressa com a recuperação da metáfora do «retrato»: «Ali f**a o retrato destes dias / gestos e pensamentos tudo fixo». A contradição entre a fixação do tempo passado e a inevitável passagem do tempo é depois abordada. Já fisicamente longe do passado — «Manhã dos outros não nossa manhã», isto é, já não a «manhã», metaforicamente, a juventude do ‘eu’ e do seu ‘tu’ — o conforto e «alegria» da lembrança é trazida pela «maré que leva e traz» e ajuda o sujeito poético a compreender a sua existência, a qual ganha sentido não apenas pelo presente vivido, mas também pela capacidade de preservar o passado na memória: «Manhã dos outros não nossa manhã / pagão solar de uma alegria calma / De terra vem a água e da água a alma / o tempo é a maré que leva e traz / o mar às praias onde eternamente somos / Sabemos agora em que medida merecemos a vida».
Concluímos assim que, neste poema de Ruy Belo, o mar surge como símbolo do tempo e da memória, refletindo tanto a passagem inevitável da vida como a permanência das recordações. A sua maré, que "leva e traz", sugere um tempo cíclico, onde o passado regressa através da lembrança, tornando-se um espaço de eternidade onde o sujeito poético continua a existir.
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P.S.: Dada a periodicidade mensal das nossas publicações, contamos regressar no dia 24 de julho, sexta-feira. Até lá!
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R. M.

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