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19/06/2026

RUY BELO, «ORLA MARÍTIMA»


Damos continuidade à série ‘O Mar na Poesia Portuguesa dos Séculos XIX e XX’ com a publicação do quadragésimo poema, da autoria de Ruy Belo, bem como uma nota sobre o autor e um comentário inéditos, por Rami Morais.


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ORLA MARÍTIMA


O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo da avenida
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios da vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali f**a o retrato destes dias
gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida


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FONTES: Poema – Ruy Belo (2014). «Todos os Poemas», 4.ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim. 321. | Imagem – Google Imagens


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NOTA SOBRE O AUTOR


Rui de Moura Belo (Rio Maior, 27 de fevereiro de 1933 – Queluz, Sintra, 8 de agosto de 1978).

Poeta, ensaísta e professor.

Estudou no Liceu de Santarém e, subsequentemente, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Terá sido durante este último período, mais especif**amente em 1951, que aderiu à Opus Dei. Depois de se transferir para a Universidade de Lisboa, concluiu o curso de Direito, em 1956, e rumou à Universidade de São Tomás de Aquino, também conhecida como ‘Angelicum’, em Roma, onde, após apenas dois anos, se doutorou em Direito Canónico com a tese «Ficção Literária e Censura Eclesiástica».

Em 1958 regressou a Portugal e passou por várias áreas de atividade. Na imprensa, trabalhou como diretor literário da Editorial Aster e chefe de redação da revista «Rumo». Na educação e na ciência, dedicou-se à investigação científ**a, a partir de 1961, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, enquanto bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, e chegou a exercer brevemente as funções de diretor-adjunto no Ministério da Educação, sob grande pressão, em virtude da sua proximidade a elementos da oposição ao regime, da sua participação na greve académica de 1962 e, ainda, da sua candidatura a deputado pelas listas da Comissão Eleitoral de Unidade Democrática. Posteriormente, abandonou a Opus Dei e emigrou para Madrid, em 1971, onde desempenhou o cargo de leitor de Português até 1977. Quando regressou novamente a Portugal, viu as suas tentativas de lecionar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa frustradas e acabou por dedicar-se ao ensino noturno na Escola Secundária Ferreira Dias, em Agualva-Cacém.

Embora o período de atividade poética tenha sido reduzido, à semelhança da sua vida, a obra que publicou tem vindo a obter sucesso crítico e comercial. Relativamente à sua poesia, há a destacar, ao nível do conteúdo, uma forte componente filosóf**a associada ao tratamento de temas religiosos, metafísicos e existenciais, muitas vezes a partir da condição humana do próprio sujeito, na relação com o seu quotidiano e a sua época. Ao nível formal, salienta-se a coexistência do versilibrismo com técnicas poéticas tradicionais e a inspiração em formas bíblicas como o salmo ou o versículo. Escreveu também ensaios sobre poesia e prefaciou «Pelo Sonho É Que Vamos», de Sebastião da Gama. Colaborou com periódicos como «O Tempo e o Modo» e «Ocidente». Verteu para português autores de renome como Montesquieu, Federico García Lorca, Jorge Luís Borges e Antoine de Saint-Exupéry. O reconhecimento tardio da sua obra culminou na distinção póstuma, em 1991, com o grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Sant'iago da Espada.


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COMENTÁRIO AO POEMA


O poema «ORLA MARÍTIMA» constitui parte integrante do volume poético «Homem de Palavra[s]», dado à estampa por Ruy Belo em 1969, e versa sobre o tema da memória e da permanência do passado.

Quanto à estrutura externa, o poema é constituído por vinte e sete versos agrupados numa estrofe bárbara. Escrito em verso livre, o poema não apresenta rima regular nem métrica constante, o que parece reforçar a fluidez do tempo e da memória, temas centrais do poema, bem como o caráter introspectivo do texto, onde as lembranças emergem de forma natural.

No que respeita à estrutura interna, o poema é divisível em três partes: uma primeira, concentrada nos três primeiros versos, que exprime a ideia da associação de memórias a uma localização; uma segunda, que se prolonga do quarto verso ao décimo nono verso, em que se enumeram momentos preservados na memória; e uma terceira, contida no intervalo do vigésimo ao vigésimo sétimo versos, em que se reforça a associação das memórias ao espaço, apesar da passagem do tempo.

Na primeira parte, como se disse, estabelece-se uma associação entre um momento passado, metonimicamente ligado às «suaves raparigas», e uma localização espáciotemporal, a saber, «junto ao mar ao longo da avenida», «ao sol dos solitários dias de dezembro» (verifique-se como as aliterações do último reforçam o caráter solar da memória evocada): «O tempo das suaves raparigas / é junto ao mar ao longo da avenida / ao sol dos solitários dias de dezembro».

Na segunda parte, explicita-se o facto de as memórias criadas no referido espaço se tornarem imutáveis, através da introdução da metáfora da fotografia: «Tudo ali pára como nas fotografias». Depois, surge uma enumeração de memórias imunes à passagem do tempo, uma característica sugerida pela passagem «ainda quando tudo ia mudar» e depois reforçada pela citação, em discurso direto, de um «humanista», «nos alpes» (possivelmente, Rilke, uma forte influência para Belo), aludindo à transitoriedade da vida, logo contestada: «Tudo ali pára como nas fotografias / É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto / alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar / És tu surges de branco pela rua antigamente / noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher / (E nos alpes o cansado humanista canta alegremente) / «Mudança possui tudo»? Nada muda». E, depois, nova enumeração, desta feita marcada pelas antíteses, como sejam «Deus» vs. «homem», «deita» vs. «levanta», «calor» vs. «frio», que refletem a riqueza e amplitude as memórias conservadas: «nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados / levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas / Deus anda à beira de água calça arregaçada / como um homem se deita como um homem se levanta / Somos crianças feitas para grandes férias / pássaros pedradas de calor / atiradas ao frio em redor / pássaros compêndios da vida / e morte resumida agasalhada em asas».

Na terceira parte, o sujeito poético retoma a sua reflexão sobre a invariabilidade das memórias criadas naquele local, uma ideia expressa com a recuperação da metáfora do «retrato»: «Ali f**a o retrato destes dias / gestos e pensamentos tudo fixo». A contradição entre a fixação do tempo passado e a inevitável passagem do tempo é depois abordada. Já fisicamente longe do passado — «Manhã dos outros não nossa manhã», isto é, já não a «manhã», metaforicamente, a juventude do ‘eu’ e do seu ‘tu’ — o conforto e «alegria» da lembrança é trazida pela «maré que leva e traz» e ajuda o sujeito poético a compreender a sua existência, a qual ganha sentido não apenas pelo presente vivido, mas também pela capacidade de preservar o passado na memória: «Manhã dos outros não nossa manhã / pagão solar de uma alegria calma / De terra vem a água e da água a alma / o tempo é a maré que leva e traz / o mar às praias onde eternamente somos / Sabemos agora em que medida merecemos a vida».

Concluímos assim que, neste poema de Ruy Belo, o mar surge como símbolo do tempo e da memória, refletindo tanto a passagem inevitável da vida como a permanência das recordações. A sua maré, que "leva e traz", sugere um tempo cíclico, onde o passado regressa através da lembrança, tornando-se um espaço de eternidade onde o sujeito poético continua a existir.


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P.S.: Dada a periodicidade mensal das nossas publicações, contamos regressar no dia 24 de julho, sexta-feira. Até lá!





R. M.

22/05/2026

DAVID MOURÃO-FERREIRA, «SECRETA VIAGEM»

Damos continuidade à série ‘O Mar na Poesia Portuguesa dos Séculos XIX e XX’ com a publicação do trigésimo nono poema, da autoria de David Mourão-Ferreira, bem como uma nota sobre o autor e um comentário inéditos, por Rami Morais.

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SECRETA VIAGEM

No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada…
Como podemos só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa…
Que figura de lenda! Olhos vagos, perdidos…
Por entre as nossas mãos, o verde mar se escoa…

Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem…
Aonde iremos ter? – Com frutos e pecado,
se justif**a, enflora, a secreta viagem!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa… alheio aos meus sentidos.
– Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos.

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FONTES: Poema – Mourão-Ferreira, David (2006). «Obra Poética», 5.ª ed. Barcarena: Editorial Presença. 44. | Imagem – Google Imagens


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NOTA SOBRE O AUTOR


David de Jesus Mourão-Ferreira (Lisboa, 24 de fevereiro de 1927 – 16 de junho de 1996).

Escritor, poeta, professor, tradutor, dirigente de várias entidades culturais, colaborador mediático.

Filho de pai democrata, David Ferreira, cujas investidas antifascistas afetaram a estabilidade familiar durante a sua infância (este chegou mesmo a ser despedido da Biblioteca Nacional, onde ocupava o cargo de secretário do diretor, Jaime Cortesão) e influíram no seu posicionamento ideológico, e de mãe alentejana, cujas origens lhe permitiram cultivar um certo imaginário rural. Encaminhado pelo filósofo Agostinho da Silva (que convenceu os pais a aceitar a sua vocação literária), licenciou-se em Filologia Românica com uma tese sobre a obra de Sá de Miranda, em 1951, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde viria a ser professor. Para além da docência e da escrita (de tal forma importante, que o autor falava no “ofício de escreviver”), desempenhou os cargos de secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Autores, secretário de Estado da Cultura (no âmbito do qual assinou o despacho que deu origem à Companhia Nacional de Bailado), vice-presidente da Association Internationale des Critiques Littéraires, presidente da Associação Portuguesa de Escritores, presidente do Pen Club Português e diretor do Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian. No domínio da imprensa escrita, destacou-se por ter sido um dos fundadores das folhas poéticas «Távola Redonda», dirigido o jornal «A Capital», bem como a revista «Colóquio/Letras», e participado na «Seara Nova» (privando desde muito cedo com vários escritores do grupo relacionado com esta publicação, ao qual o pai também pertenceu, nomeadamente José Rodrigues Miguéis, António Sérgio e Aquilino Ribeiro, entre outros) e assinado uma coluna de crítica de poesia no «Diário Popular». Foi também responsável, no meio televisivo e radiofónico, por vários programas de âmbito literário («Hospital das Letras», «Imagens da Poesia» e «O Dom de Contar») e constituiu presença assídua em colóquios, debates e conferências em Portugal e no estrangeiro, como ensaísta, crítico ou poeta. Mercê das relações com a indústria musical que estabeleceu durante o seu primeiro casamento com uma sobrinha de Valentim de Carvalho (note-se que possuía uma forte ligação à vida famíliar, tendo tido dois filhos deste casamento, que por sua vez lhe deram onze netos), contribuiu com letras para alguns fados de Amália (entre os quais o famosíssimo «Barco Negro»); Camané, por exemplo, viria também, posteriormente, a utilizar composições do autor na sua música. Em reconhecimento do trabalho que realizou, foi condecorado com o grau de Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada e recebeu o Prémio Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores.

Literariamente, a sua vasta obra dividiu-se pela poesia (começou a publicar em 1950, ano de que data a primeira coletânea de poesias, «A Secreta Viagem»), pelo conto, pelo romance (numa fase tardia da vida, estreou-se com «Um Amor Feliz», premiado pela A.P.E.), pelo teatro e pelo ensaio. Influenciado por Garrett, Régio, Octavio Paz e T.S. Eliot, era avesso a movimentos ou correntes e não se filiou em nenhum dos que vigoravam na sua época (afirmou a este respeito: «Não reivindico nenhum rótulo e, em princípio, não aceito mesmo nenhum dos que me têm posto. Todos somos diferentes. E essas diferenças do universo íntimo refletem-se, naturalmente, ao nível da linguagem, diferenças lexicais, correspondentes a formas específ**as de aspiração. O espírito de um autor, de um poeta, não se coaduna com as limitações terminológicas»). Os temas que se destacam na sua obra poética serão, entre outros, a mulher, o amor e o erotismo, a morte, o tempo, a cidade e a paisagem, a escrita e a angústia existencial. Do ponto de vista do estilo, que muitos consideram de rigor clássico, destacam-se o grande labor em torno do ritmo e da musicalidade e o recurso à aliteração, à metáfora e à antítese.


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COMENTÁRIO AO POEMA

O poema «SECRETA VIAGEM» constitui parte integrante do volume homónimo «Secreta Viagem», primeiro livro de poemas de David Mourão-Ferreira, dado à estampa em 1950, e versa sobre o tema do amor.

Formalmente, trata-se de um texto composto por um total de dezasseis versos, agrupados em quatro quadras. Em termos de métrica, encontramos um predomínio do hendecassílabo e, no que respeita à rima, verif**a-se um padrão regular, refletido no esquema ABAB.

Quanto à estrutura interna, o poema figura-se-nos divisível em duas partes: uma primeira, que se prolonga da primeira à terceira estrofe, em que o sujeito poético elabora o seu estado de abandono e desorientação; e uma segunda e última parte, contida na derradeira quadra, em que o sujeito se resigna face ao seu destino.

A primeira parte começa com a localização da narração que se irá seguir, um «barco», um «navio», em que o sujeito da enunciação e do enunciado foram abandonados, o que gerou desânimo (atente-se no valor metafórico dessa localização, que sugere a ideia de refúgio e/ou veículo para enfrentar um ambiente potencialmente hostil, o mar): «No barco sem ninguém, anónimo e vazio, / ficámos nós os dois, parados, de mão dada… / Como podemos só dois governar um navio? Melhor é desistir e não fazermos nada!» De seguida, temos a introdução de um elemento maravilhoso, uma vez que, nesta «secreta viagem», os sujeitos sofrem uma metamorfose, passando de seres «reais» a seres «de madeira», num processo que contém em si uma dimensão antitética, com a oposição entre movimento e estatismo, entre visão e cegueira, uma existência aprazível e uma existência atormentada. Estas ideias são sugeridas metonimicamente por vários elementos, entre os quais teremos de destacar «a madeira» e os «olhos», que, juntamente com o particípio passado «esculpidos» e a referência à «lenda», parecem remeter para um universo escultórico e insinuar que o «barco abandonado» poderá, na realidade, ser uma metáfora da relação entre o ‘’eu’ e o ‘tu’ (veja-se o valor expressivo da pontuação, que reflete a pungência do discurso do sujeito de enunciação): «Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos, / tornamo-nos reais, e de madeira, à proa… / Que figura de lenda! Olhos vagos, perdidos… / Por entre as nossas mãos, o verde mar se escoa… // Aparentes senhores de um barco abandonado, / nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem… / Aonde iremos ter? – Com frutos e pecado, / se justif**a, enflora, a secreta viagem!»

Na segunda parte, temos a confirmação da ideia veiculada pela metáfora do «barco». Consumado o processo acima descrito (repare-se no valor semântico do advérbio «Agora»), o ‘’eu’ afirma a inevitabilidade da sua união com o ‘tu,’ inferiorizada face a tudo o resto num tom quase hiperbólico, ao ponto de ser relativizada a importância de um final trágico ou feliz, através, respetivamente, das imagens «Desfeitos num rochedo» e «salvos na enseada»: «Agora sei que és tu quem me fora indicada. / O resto passa, passa… alheio aos meus sentidos. / – Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada, / a eternidade é nossa, em madeira esculpidos.»

Concluímos então que, neste poema de David Mourão-Ferreira, o Mar surge como um elemento no qual e contra o qual se projeta a união entre o ‘eu’ e o ‘tu’. Dicotomicamente, é razão e desafio para essa união, pois, ao mesmo tempo que os conduz, também os ameaça e os dissolve. Mais importante que a incerteza do destino, porém, é a certeza da união de ambos na intemporalidade.

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P.S.: Dada a periodicidade mensal das nossas publicações, contamos regressar no dia 19 de junho, sexta-feira. Até lá!





R. M.

17/04/2026

ANTÓNIO RAMOS ROSA, «O MAR»

Damos continuidade à série ‘O Mar na Poesia Portuguesa dos Séculos XIX e XX’ com a publicação do trigésimo oitavo poema, da autoria de António Ramos Rosa, bem como uma nota sobre o autor e um comentário inéditos, por Rami Morais.

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O MAR

Ondas que descansam no seu gesto nupcial
abrem-se caem
amorosamente sobre os próprios lábios
e a areia
ancas verdes violetas na violência viva
rumor do ilimite na gravidez da água
sussurros gritos minerais inércia magníf**a
volúpia de agonia movimentos de amor
morte em cada onda sublevação inaugural
abre-se o corpo que ama na consciência nua
e o corpo é o instante nunca mais e sempre
ó seios e nuvens que na areia se despenham
ó vento anterior ao vento ó cabeças espumosas
ó silêncio sobre o estrépito de amorosas explosões
ó eternidade do mar ensimesmado unânime
em amor e desamor de anónimos amplexos
múltiplo e uno nas suas baixelas cintilantes
ó mar ó presença ondulada do infinito
ó retorno incessante da paixão frigidíssima
ó violenta indolência sempre longínqua sempre ausente
ó catedral profunda que desmoronando-se permanece!


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FONTES: Poema – António Ramos Rosa (2020). «Obra Poética II». Lisboa: Assírio & Alvim. 250. | Imagem – Google Imagens


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NOTA SOBRE O AUTOR


António Victor Ramos Rosa (Faro, 17 de outubro de 1924 — Lisboa, 23 de setembro de 2013).

Poeta, escritor, tradutor, professor/explicador de línguas, administrativo e comercial.

Por motivos de saúde, não concluiu o ensino secundário. Exerceu, como dissemos, as funções de empregado de escritório e comercial, as quais lhe desagradavam por inibirem a sua veia criativa (o célebre poema «O Funcionário Cansado» é prova disto), até que eventualmente se passou a dedicar exclusivamente à atividade literária. Esteve envolvido no Movimento de Unidade Democrática, que se opunha à ditadura salazarista, e por esse motivo chegou a estar preso por três meses. Casou com a poetisa Agripina Costa Marques, e juntos tiveram uma filha.

Para além de poeta, destacou-se enquanto ensaísta (um dos seus trabalhos, «Incisões Oblíquas: estudos sobre poesia portuguesa contemporânea», de 1987, foi agraciado com o prémio Jacinto do Prado Coelho, do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários), colaborador de periódicos (entre muitos outros, fundou e colaborou com a revista «Árvore», que propunha um novo ideário poético e se tornou incómoda para o regime, sendo proibida pela censura a partir do quarto número) e tradutor (verteu para português autores de renome como Camus, Gide, Foucault, Brecht, Stendhal e Yourcenar, e a sua antologia de Paul Éluard, «Algumas das Palavras» recebeu, em 1976, o prémio de Tradução da Fundação de Hautevilliers).

A sua profusa obra poética (a primeira obra, «O Grito Claro», data de 1958 e foi seguida por várias dezenas de obras, até à última publicação, «Numa folha, leve e livre», no ano da sua morte), caracterizada por simplicidade vocabular (com predomínio do nome e do adjetivo face ao verbo) e depuração e liberdade formais e estilísticas (que sublinham a importância da mancha gráf**a, a par do valor fónico), versa sobre temas como a denúncia da alienação, a palavra como cosmogonia e o amor e o desejo. Para Ramos Rosa, o poema era, mediante o uso da palavra, o espaço privilegiado para a questionação e/ou busca de algo por desvendar, para a criação, e não para a representação de algo pré-existente, nomeadamente no que se refere às relações entre o homem e a realidade em que se insere. A crítica desde cedo reconhece o valor da lírica ramos-rosiana, tendo-lhe sido atribuídas numerosas distinções de prestígio ao longo da sua carreira (nem todas aceites: o autor recusou o Prémio Nacional de Poesia atribuído pela Secretaria de Estado da Informação e Turismo, em 1971, decisão a que não terá sido alheia a sua oposição ao regime ditatorial).

Em reconhecimento do seu contributo para a Cultura Portuguesa, foi tornado Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’lago da Espada (1992) e condecorado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (1997).


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COMENTÁRIO AO POEMA

O poema «O MAR» constitui parte integrante do volume poético «Facilidade do Ar», publicado por António Ramos Rosa em 1990, e versa sobre o tema do Mar.

Formalmente, o poema é constituído por vinte e um versos, agrupados numa estrofe bárbara. Predomina o verso livre ou verso branco, ou seja, não há rima definida, o que confere ao poema uma maior fluidez expressiva. Quanto à métrica, o poema pode ser caracterizado como versilibrista, o que signif**a que não segue uma métrica fixa, permitindo que a forma poética se ajuste ao conteúdo. Esta liberdade formal sugere que o conteúdo do poema, mais do que a forma, é o principal orientador da expressão poética, espelhando, de certa forma, o movimento livre e imprevisível do mar.

Relativamente à estrutura externa, o texto pode ser dividido em duas partes: uma primeira, que se prolonga do primeiro ao décimo primeiro verso, em que se descrevem as ondas do mar e se narra o seu movimento; e uma segunda, entre os versos décimo segundo e vigésimo primeiro, em que o ‘eu’ lírico se dirige às ondas e ao mar.

Na primeira parte, o ‘eu’ centra-se nas ondas, para, metonimicamente, descrever o mar. Nos quatro versos iniciais, o movimento ondular é narrado de forma extensa, sendo equiparado a um ritual amoroso, sugerido pelas formas verbais que sugerem movimentos de natureza cubicular, a saber, «descansam», «abrem-se», «caem», bem como pelos lexema «lábios» e «amorosamente» e pela locução «gesto nupcial», que parecem contribuir para introduzir uma dimensão sensual no texto (atente-se na aparente personif**ação das ondas): «Ondas que descansam no seu gesto nupcial / abrem-se caem / amorosamente sobre os próprios lábios / e a areia». Temos, depois, uma enumeração de metáforas que constroem um universo de antíteses relativo ao mar, que exprimem a sua natureza dualística, oscilando entre estatismo e movimento, som e silêncio, nascimento e morte, etc. (veja-se como se destacam as sinestesias, que conferem ao poema uma intensidade sensorial): «ancas verdes violetas na violência viva / rumor do ilimite na gravidez da água / sussurros gritos minerais inércia magníf**a / volúpia de agonia movimentos de amor / morte em cada onda sublevação inaugural». No fim desta parte, dois versos aludem à inseparabilidade entre mar e terra, sendo que o primeiro “ama” a segunda, e ao paradoxo representado pelas ondas, simultaneamente efémeras mas eternamente repetidas: «abre-se o corpo que ama na consciência nua / e o corpo é o instante nunca mais e sempre».

A segunda parte contém uma sucessão de apóstrofes, marcadas pelas anáforas com a interjeição «Ó», que exprimem a admiração do ‘eu’ perante a grandiosidade duplícita do mar, expressa, uma vez mais, com metáforas que aludem a dicotomias como «silêncio» vs. «explosões», «amor» vs. «desamor», «múltiplo» vs. «uno» e, não menos importante, permanência vs. desmoronamento (veja-se como as metáforas introduzem uma forte componente visual no poema, sobretudo nos primeiros versos, com as referências antropomórf**as «seios e nuvens» e as «cabeças espumosas»): «ó seios e nuvens que na areia se despenham / ó vento anterior ao vento ó cabeças espumosas / ó silêncio sobre o estrépito de amorosas explosões / ó eternidade do mar ensimesmado unânime / em amor e desamor de anónimos amplexos / múltiplo e uno nas suas baixelas cintilantes / ó mar ó presença ondulada do infinito / ó retorno incessante da paixão frigidíssima / ó violenta indolência sempre longínqua sempre ausente / ó catedral profunda que desmoronando-se permanece!»

Concluímos então que, no poema «O MAR», de Ramos Rosa, o mar surge representado através de metáforas e imagens sensoriais que ajudam o sujeito lírico a compor uma entidade complexa e ambivalente. Simultaneamente pacífico e violento, antiquíssimo e renovado, transitório e eterno, o mar exerce sobre o sujeito poético um fascínio avassalador que, por contraste, sublinha a efemeridade da experiência humana.

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P.S.: Dada a periodicidade mensal das nossas publicações, contamos regressar no dia 22 de maio, sexta-feira. Até lá!





R. M.

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